Fonte: Carlos A. Nobre e José Marengo – Redação UOL

Foto: Getty Images/Science Photo Libra

El Niño é um fenômeno climático que ocorre no Oceano Pacífico tropical, quando as águas da região equatorial centro-leste ficam mais quentes do que o normal. Ele faz parte de um ciclo natural chamado El Niño-Oscilação Sul (ENOS) e influencia o clima em diferentes regiões do mundo. Nesse ciclo, o oposto do El Niño é a La Niña, caracterizada pelo resfriamento das águas superficiais no centro-leste do Pacífico tropical. Esse aquecimento e resfriamento alteram a circulação atmosférica global e modificam os padrões de chuva e temperatura. Trata-se de um fenômeno real, amplamente documentado pela ciência e estudado em detalhes desde meados do século 20. Por exemplo, a La Niña de 2020-2022 esteve associada à seca no Sul do Brasil e a chuvas abundantes na Amazônia.

Desde a década de 1990, diversos estudos passaram a identificar possíveis impactos do El Niño em diferentes regiões do mundo, incluindo o Brasil. Entre os efeitos mais recorrentes, destacam-se:
– mais chuvas no Sul do Brasil e na costa do Peru e do Equador;
– secas na Amazônia e no Nordeste do Brasil;
– menos furacões no Atlântico tropical norte;
– aumento da temperatura global.

Grandes secas na Amazônia ocorreram durante anos de El Niño, como em 1925, 1972-73, 1983, 1986, 1992-93, 1998, 2010, 2015-16 e 2023-24. No entanto, secas também ocorreram na ausência do fenômeno, como em 1963 e 2005. Registros históricos indicam que o El Niño de 1877 a 1879 esteve associado a uma grande seca que afetou a Índia e o Sudeste da Ásia, resultando, direta ou indiretamente, na morte de milhões de pessoas por fome. Esse mesmo evento também provocou a morte de centenas de milhares de pessoas no Nordeste do Brasil.

Ainda assim, a seca histórica mais longa no país ocorreu entre 2012 e 2018, sendo 2012 o ano mais seco — e não um ano de El Niño. Isso mostra que o fenômeno não é o único responsável por extremos climáticos no Brasil e no mundo. Há também a influência do Oceano Atlântico tropical norte (como nas secas de 1963 e 2005) e de fatores não climáticos, como mudanças no uso da terra.

Instituições científicas e meteorológicas, nacionais e internacionais (NOAA; ECMWF; IRI), monitoram continuamente o Pacífico e publicam dados observacionais, como temperatura do mar, ventos e pressão atmosférica. A tecnologia atual combina medições feitas por plataformas de superfície (como navios e boias) com dados de satélite, permitindo acompanhar o desenvolvimento do El Niño. Modelos complexos que integram oceano e atmosfera permitem prever, com algum grau de confiança, a intensidade do fenômeno. Em geral, essas previsões são mais confiáveis para horizontes de um a dois meses; além disso, a incerteza aumenta.

O El Niño aquece de maneira anormal as águas do Pacífico
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Há registros de eventos em que o El Niño começou e, quando se esperava uma intensificação, acabou se dissipando. Em outros casos, evoluiu rapidamente de um estado neutro para um evento intenso em poucos meses, afetando regiões que não haviam sido impactadas anteriormente. Isso indica que os estudos desenvolvidos a partir da década de 1990 precisam ser constantemente atualizados, especialmente diante das mudanças climáticas. Ainda assim, o monitoramento contínuo segue sendo a melhor ferramenta para compreender o presente e antecipar possíveis cenários. O uso de modelos acoplados permite prever o início e a intensidade do fenômeno com meses de antecedência, além de estimar anomalias de chuva e temperatura por região, subsidiando a emissão de alertas sazonais de risco.

O El Niño não causa desastres diretamente, mas altera a probabilidade de ocorrência de eventos extremos no Brasil. Isso permite a antecipação de riscos. Eventos extremos não são sinônimo de desastres naturais: são fenômenos meteorológicos que podem desencadear desastres, dependendo de sua intensidade e dos impactos sobre as sociedades e os territórios. O El Niño não prevê desastres específicos, mas aumenta probabilidades — como maior chance de chuva extrema no Sul ou maior risco de seca no Norte e Nordeste. O desastre em si depende também de fatores não climáticos, como a vulnerabilidade da população e a exposição das áreas onde ela vive.

Ainda estão recentes na memória os efeitos do El Niño de 2023 e 2024 — considerado o terceiro mais intenso já registrado, atrás do evento de 2015-2016. Esses anos estiveram entre os mais quentes da história e foram marcados por grandes desastres no Brasil, associados direta ou indiretamente ao fenômeno: inundações no Rio Grande do Sul na primavera de 2023 e no verão de 2023-2024; secas e incêndios recordes no Pantanal e na Amazônia; além de um número recorde de ondas de calor em 2024.

Circulam, há algum tempo, notícias falsas sobre o El Niño, especialmente quando o tema são desastres no Brasil. Isso pode decorrer de confusão com o debate sobre mudanças climáticas (um tema relacionado, mas distinto), desinformação ou interpretações equivocadas de eventos extremos, além de possíveis usos políticos do assunto. Nem todo El Niño provoca catástrofes no país; muitas vezes, os efeitos se limitam a anomalias climáticas moderadas. E, quando há desastres, a explicação não se resume ao fenômeno. As secas no Nordeste, por exemplo, também estão associadas a anomalias de temperatura no Atlântico tropical ao norte do Equador, além de fatores como gestão hídrica e vulnerabilidade social.

No caso das ondas de calor, estudos mostram que nem todas são dominadas pelo El Niño. Ainda assim, em 2024, foi registrado o maior número desses eventos no Brasil (dez), em comparação com 2023 (oito) e 2025 (sete). O fenômeno esteve presente até abril e maio de 2024, influenciando o verão daquele ano e a primavera e o verão de 2023. Na Amazônia, a combinação entre seca e ondas de calor teve efeitos severos, levando, por exemplo, à morte de aproximadamente 300 botos-cor-de-rosa no Lago Tefé.

O El Niño permite previsões sazonais (em escala de meses), mas não possibilita prever desastres em nível municipal. Seus efeitos variam conforme a região e o setor (como energia e agricultura) e nem sempre são negativos, podendo, por exemplo, aumentar a disponibilidade de água em áreas secas e melhorar os níveis de reservatórios.

Previsões atuais da NOAA indicam cerca de 80% de chance de formação de El Niño entre julho e agosto de 2026, podendo chegar a 80%-90% no segundo semestre. O fenômeno pode persistir até o fim de 2026 e influenciar 2027. No entanto, ainda há incerteza significativa quanto à intensidade. No boletim mais recente, a NOAA aponta uma probabilidade de 25% de ocorrência de um evento moderado entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. Cenários que indicam um evento forte existem, mas permanecem especulativos.

Termos como “Mega El Niño” ou “El Niño Godzilla”, frequentemente difundidos nas redes sociais, não têm base científica. A possibilidade de um evento forte ainda não pode ser definida com segurança, e não há previsão científica de “catástrofe inevitável”. Falar de 2027, neste momento, significa trabalhar com cenários, e não com previsões determinísticas. Em resumo, não é incorreto afirmar que pode haver um El Niño forte em 2026 ou 2027, mas muitas das informações que circulam são exageradas ou mal interpretadas, gerando alarmismo desnecessário. Existe, sim, um risco climático em desenvolvimento, ainda cercado de incertezas relevantes. É fundamental separar o que é ciência do que é distorção e, à medida que as previsões avancem, implementar políticas eficazes de adaptação.