Fonte: Juliana Rangel – Comunicação 2
Fotos: Divulgação
Peça feita por bordadeiras do projeto social em Paraty é inspirada nos pássaros exóticos da Mata Atlântica; o vestido será usado pela empresária e modelo internacional Thayná Soares
A participação brasileira na 79ª edição do Festival de Cinema de Cannes vai muito além das telas. Ganha forma, cor e textura nos pontos delicados do vestido de linho belga que será usado pela empresária e modelo internacional Thayná Soares, no próximo sábado, dia 23. A peça, bordada artesanalmente por 17 artesãs de Paraty, no Rio de Janeiro, transforma a fauna da Mata Atlântica em arte através da técnica de pintura de agulha.
Sob os flashes do tapete vermelho estarão, tanto os bordados artísticos que vêm conquistando cada vez mais espaço na moda contemporânea, quanto as histórias e os sonhos dessas artesãs caiçaras que encontraram no bordado uma forma de pertencimento, renda e transformação de vida em uma cidade polo cultural e histórico.
O vestido é uma produção da marca de slow fashion Thayná Caiçara, em parceria com a Casa da Cultura de Paraty, que propõe uma ação social ao unir formação, tradição, criação coletiva e valorização do território.“Eu não quero ser a protagonista desse momento”, explica Thayná Soares. “As protagonistas são essas mulheres que estão começando a empreender agora no nosso projeto. O que está sendo costurado ali vai muito além do tecido. É a reconstrução pessoal através da arte”, completa.
Trajetória
O trabalho começou muito antes de chegar ao tapete vermelho. Desde 2025, a iniciativa vem sendo construída a partir do curso “Bordado em pintura de agulha” que formou 20 mulheres moradoras de Paraty, na Costa Verde do RJ, na primeira turma. Vindas de diferentes bairros e comunidades, as participantes carregam em seus saberes as referências culturais e afetivas de onde vivem. Ao todo já são 40 bordadeiras formadas.
Depois de passar pelas passarelas de Nova York e Alta Costura de Paris, as criações da marca Thayná Caiçara têm agora o momento mais simbólico desse percurso: o Festival de Cannes. Em vez de priorizar apenas glamour ou assinatura empresarial, Thayná escolheu transformar a peça em vitrine para a turma de mulheres recém-formadas no curso.
Ela explica que a barra do vestido foi bordada coletivamente. Cada artesã escolheu um pássaro diferente da Mata Atlântica para representar em pintura de agulha. O projeto visa, acima de tudo, dar independência a essas artesãs, que podem atender clientes diretamente, sem intermediários, formando suas próprias redes de conexões e valorização profissional.
A empresária e modelo fala emocionada de um sonho que nasceu durante a pandemia. Enquanto o vírus silenciou o mundo, foi o som delicado da agulha atravessando o tecido que reconectou Thayná Soares às próprias raízes. Longe de Paraty, terra natal, vivendo na Bélgica, começou a procurar mulheres que carregavam nas mãos a memória viva da cidade: a avó da amiga, a professora da escola, a bordadeira do bairro, grupos tradicionais espalhados pelo centro histórico e pelas comunidades caiçaras.
Sem pretensão de criar uma marca ou negócio, Thayná enviava camisetas para serem customizadas e fazia apenas um pedido: “Bordem o que faz parte da vida de vocês”. E foi assim que começaram a nascer cenas do cotidiano de Paraty. Nesse processo Thayná reencontrou o próprio amor pelo bordado. Ela havia aprendido ainda muito jovem, durante a gravidez da filha, quando bordou todo o enxoval à mão. Anos depois, aquela mesma sensação de espera e recolhimento reapareceu na pandemia, trazendo de volta a necessidade de criar com as mãos, dando oportunidade a outras mulheres de fazerem o mesmo.

