Fonte: Maria Beatriz Costa – Agência Brands

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Pesquisador brasileiro associado à Harvard Medical School explica por que cuidar de uma pessoa com Alzheimer envolve mais do que controlar sintomas e preservar a memória, e exige atenção à autonomia, à família e à saúde de quem cuida

O Alzheimer não afeta apenas a memória de quem recebe o diagnóstico. À medida que a doença avança, mudanças na autonomia, na rotina e nas relações familiares também passam a fazer parte da vida do paciente e de quem assume seus cuidados. No Dia Mundial da Doença de Alzheimer, em 21 de setembro, o pesquisador brasileiro David Amorim, especialista em envelhecimento e pesquisador associado ao Marcus Institute for Aging Research, ligado à Harvard Medical School, chama atenção para a necessidade de ampliar a forma como a doença é compreendida e cuidada.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 57 milhões de pessoas vivem com demência no mundo, e quase 10 milhões de novos casos são registrados a cada ano. A doença de Alzheimer é responsável por cerca de 60% a 70% dos casos de demência. A entidade também destaca que a demência não é uma consequência inevitável do envelhecimento e que fatores como sedentarismo, tabagismo, hipertensão, diabetes, perda auditiva e isolamento social estão associados ao risco de desenvolver a condição.

Para David, porém, a discussão não pode se limitar ao diagnóstico ou aos indicadores clínicos. Especializado em Antropologia Médica, área que investiga como fatores sociais, culturais e econômicos influenciam a experiência de saúde e doença, o pesquisador estuda especialmente o cuidado de idosos e pessoas com demência.

“Quando uma pessoa recebe um diagnóstico de Alzheimer, não é apenas a vida dela que muda. A família também precisa reorganizar sua rotina, suas expectativas e sua própria relação com o cuidado. Por isso, não podemos pensar somente na doença, mas na pessoa e nas pessoas que estão ao redor dela”, afirma.

A experiência dos cuidadores é um dos pontos centrais de seus estudos. Familiares podem enfrentar sobrecarga emocional e física, isolamento e sintomas de depressão, ao mesmo tempo em que enxergam o cuidado como uma responsabilidade moral com pais, mães ou cônjuges. Para o pesquisador, compreender essa relação é fundamental para desenvolver formas de assistência que ofereçam suporte sem desconsiderar os vínculos e valores envolvidos.

A prevenção também faz parte dessa discussão. Em 2026, a OMS atualizou suas recomendações sobre demência e apontou que até 45% do risco pode estar relacionado a fatores potencialmente modificáveis ao longo da vida, reforçando a importância de hábitos como atividade física, controle da pressão arterial e do diabetes, alimentação equilibrada, estímulo cognitivo, participação social e atenção à saúde auditiva.

“Precisamos mudar a ideia de que envelhecer significa necessariamente perder capacidade. O objetivo deve ser preservar a funcionalidade e a autonomia pelo maior tempo possível. Mesmo diante de uma doença como o Alzheimer, o cuidado precisa continuar olhando para aquilo que a pessoa consegue fazer, para seus desejos e para sua dignidade”, explica David.

Atualmente, o pesquisador também trabalha na adaptação da ferramenta ICOPE, da Organização Mundial da Saúde, para contextos de reabilitação de pessoas idosas após hospitalizações. O instrumento avalia a capacidade intrínseca da pessoa idosa e, em seu trabalho, David busca incorporar também aspectos qualitativos que permitam compreender o contexto social e cultural em que cada paciente está inserido.

A partir dessa perspectiva, o Dia Mundial do Alzheimer também representa uma oportunidade para ampliar a discussão sobre a doença. Mais do que tratar sintomas, o desafio está em construir formas de cuidado que preservem a autonomia, apoiem as famílias e considerem a experiência de quem vive com a condição.

David Amorim