Fonte: Graziela Delalibera

Foto: Higor Arco

Espetáculo de grupo rio-pretense faz duas sessões gratuitas no Centro de Tradições Afro, dias 18 e 19 de abril. Obra se passa em uma feira de exposição, quando artistas são contratados para entreter o espetáculo. Ações fazem parte do Projeto BOI MATERIAL – Interior capital, contemplado pelo Edital Fomento CultSP – PNAB

A companhia rio-pretense Cênica estreia em Araçatuba o espetáculo BOI MATERIAL, resultado da parceria artística com o encenador e dramaturgo convidado Pedro Kosovski, fundador d’Aquela Cia de Teatro (Rio de Janeiro). O artista assina direção e dramaturgia, essa em coautoria com Fagner Rodrigues. A montagem faz duas sessões gratuitas no Centro de Tradições Afro de Araçatuba (CTAA), dias 18 (sábado), às 19h, e 19 de abril (domingo), às 18h, com acessibilidade em Libras.

BOI MATERIAL se passa em uma feira de exposição, quando um grupo de artistas é contratado para entreter o espetáculo e se percebe como parte da complexa engrenagem que reproduz um jogo de poder, cujos movimentos incidem diretamente contra as existências vivas do planeta. Durante um leilão de gado, que ironicamente perpassa a iconografia do boi na história da pintura brasileira, o grupo subverte o jogo, ora assumindo o papel dos donos da terra, ora especulando sobre um levante.

O elenco conta com Andrea Capelli, Beta Cunha, Christina Martins, Deivison Miranda, Fabiano Amigucci, Geovanna Leite, Glauco Garcia, Mayk Ricardo, Simone Moerdaui e Vanessa Palmieri. Na direção musical e composições inéditas, Felipe Storino. A direção vocal é de Everton Gennari e a direção de movimento, de Mayk Ricardo.

O ponto de partida para BOI MATERIAL foi a investigação sobre o paradoxal e complexo signo do boi. De um lado, ele representa o poder fundado na lógica patriarcal, machista, autoritária, predatória e exploradora que se impõe sobre as diversas formas de existência, consideradas meros recursos dos quais “se aproveita até o berro”. De outro, representa uma potência coletiva, criativa e transgressora, que pode ser observada no modo como a cultura popular, as comunidades menorizadas e a arte invertem e subvertem as normas vigentes para continuarem existindo e pulsando como vida.

“A figura do boi também cria um horizonte de visibilidade e debate sobre o lugar dos artistas no interior, também inscrito nessas ambivalências. A distância dos grandes centros de cultura os aparta sob alguns aspectos, especialmente pela manutenção de estereótipos que fazem subestimar suas potencialidades. Contudo, ajuntamentos artísticos interioranos seguem resistindo e desorganizando tais estereótipos por meio da sua arte, de seus modos de produção e da criação e fortalecimento de redes de articulação e afeto”, considera a equipe artística de forma conjunta.

A cenografia (por Lidia Kosovski) e os figurinos (Fabiano Amigucci) iniciais contribuem para a sobreposição de outra camada de significação do espaço e do grupo de artistas ao apresentarem uma visualidade que remete a um frigorífico – mais uma estação desse sistema, que denota assepsia e ordem, onde artistas são artistas, são trabalhadores, são os próprios bois.

A partir do momento em que elementos do grupo assumem o papel de figuras que alegorizam os donos da terra e, por outro lado, figuras míticas de poder, surge mais uma camada de atuação, também expressa nas transparências presentes em seus figurinos estilo agro, inspiradas nos cortes de carne bovina e que evidenciam partes dos corpos dos atuantes.     

A dramaturgia não possui um caráter linear, entretanto se equilibra sobre um fio cujo percurso está enunciado nos corpos, nos figurinos e nas transformações que acontecem com e sobre o espaço, cujo sentido é a imaginação de um mundo possível.

Cena de ‘Boi Material’