Texto: José Emilio Fehr Pereira Lopes

O Jaleco Branco e a Luz da Lâmpada

*José Emilio Fehr Pereira Lopes (Milo) – médico, cientista, advogado e um dos nomes mais inovadores na pesquisa oncológica internacional. Natural de São Carlos (SP), formou-se em Medicina na FAMECA – Faculdade de Medicina de Catanduva/SP.

*Dermatologista Regina Helena de Oliveira Buso Nechar ex-professora da FAMECA.

Um testemunho sobre o que realmente forma um médico

Foi numa tarde fria de junho de 1987.
O Hospital Emílio Carlos, em Catanduva, voltava a pulsar depois de um tempo de portas semiabertas. Erguidos décadas antes por uma comunidade que acreditava que cuidar era um ato de fé, aquele hospital era símbolo de esperança — suas paredes abrigavam histórias de partos, despedidas e milagres discretos, que a medicina técnica jamais registraria.

Naquele dia, o hospital servia de cenário para uma aula prática de dermatologia.
Os corredores longos e ecoantes se enchiam de passos apressados, vozes jovens e perfumes caros. Era o fim da tarde, e o inverno começava a se deitar sobre a cidade.

Era a segunda metade dos anos 80, tempo em que o estudante de medicina se sentia uma espécie de semideus em construção. Vestia-se de branco, mas com vaidade — jaleco engomado, camisa de grife, cinto europeu, sapatos importados, o perfume de Karl Lagerfeld flutuando no ar como símbolo de uma distinção imaginária.

Eu também estava entre eles.
E, como tantos, confundia aparência com valor.
Confundia o dom da vocação com o espetáculo da vaidade.

Naquela tarde, diante de um paciente humilde, encenei o papel que esperavam de mim.
Falei com autoridade, com impaciência, com a arrogância de quem ainda não conhecia a própria ignorância. Ele mal conseguia se expressar, e eu, sem esforço algum para compreendê-lo, recomendei que trouxesse alguém “que falasse melhor”. Antes de deixá-lo sair, ainda o adverti sobre higiene pessoal e dentes mal cuidados — uma lição desnecessária de quem, na verdade, precisava aprender o essencial: a humildade.

Ele abaixou a cabeça e partiu.
E eu, cego, acreditei ter cumprido o dever.

Ao fim da aula, enquanto escrevia observações frias em um relatório, a professora — com voz calma e olhar firme — aproximou-se e disse, com serenidade quase cortante:

— Imagino como deve ser difícil para vocês, tão bem vestidos, perfumados, com carros novos no estacionamento, atenderem alguém assim.

Sorri, achando que ela me compreendia.
Mas a suavidade de sua voz se tornou espelho e sentença:

— Por que você precisa se fazer tão grande, quando se estivesse nu já seria maior que o paciente que está aqui, doente e pedindo ajuda?

O silêncio desabou sobre mim.
E ela prosseguiu:

— Esse homem deve ter acordado antes do amanhecer. Com três reais no bolso. Um, gastou no transporte; outro, em um salgado gorduroso para enganar a fome; e o último, guardou para o ônibus de volta. Passou o dia inteiro esperando, matou a sede com água da torneira e, quando finalmente chegou sua vez, foi recebido por você.

Levantei os olhos. A lâmpada única da sala — amarelada, cansada — parecia iluminar apenas a minha vergonha.

Ela concluiu, pausadamente:
— Vocês estão aqui por nota. Ele veio por esperança.

E foi embora.

Fiquei sozinho.
E percebi, talvez pela primeira vez, o peso real de um jaleco.

Naquela mesma noite, procurei o endereço do paciente e fui até sua casa.
Era uma meia casa de madeira, dividida por uma cerca de bambu.
A esposa dele me recebeu com espanto e ternura, e me ofereceu um café emprestado do vizinho.
Naquele gesto, percebi o verdadeiro significado da palavra cuidar.

Quando o homem chegou, não se surpreendeu ao me ver.
Parecia já esperar.
Apenas me abraçou. Nenhuma palavra. Apenas perdão.

Ali, nasceu um amigo — e morreu um personagem.
O perfume se dissipou.
O jaleco de vaidade ficou esquecido em algum armário da alma.
E o que restou foi o ser humano que, enfim, começava a aprender o que é ser médico.

Desde então, entendo que a medicina não é um trono, é um altar.
E sobre um altar, ninguém se exibe — ajoelha-se.

Anos se passaram.
Atendi milhares de pacientes. Ensinei, aprendi, errei e recomecei.
Mas ainda hoje me pergunto se aquela professora sequer se lembra daquela tarde, daquele corredor frio, daquela conversa breve.

Talvez não.
Mas eu nunca esqueci.

Porque foi a Dra. Regina Helena de Oliveira Buso Nechar quem, com poucas palavras e um gesto de sabedoria silenciosa, me formou médico muito antes da formatura.

E se um dia alguém me perguntar onde aprendi o verdadeiro sentido da medicina, direi:
foi sob a luz fraca de uma lâmpada, no Hospital Emílio Carlos —
onde um professor não deu uma aula, mas acendeu uma consciência.